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terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Fim do mundo

‎"Do meio da rua se erguia uma criatura colossal e amorfa. Sua pele flácida era predominantemente branca como papel, intercalada por intervalos vermelhos que deviam ser suas articulações. Era possível ver seu interior, inclusive seu enorme coração descolorido pulsando. O som emitido pela coisa era agudo pontuado por suaves notas graves. Mais parecia que decaia em sua amorfosidade, balançando de um lado para o outro, locomovendo-se em seu desritmo."


"Asas de Ângelo" CAPÍTULO QUATRO / Fim do mundo

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Joystick #5: Call of Cthulhu - Dark Corners of the Earth


Uma parceiria da Bethesda Softworks com a Ubisoft, Dark Corners of the Earth deve ser a mais brilhante adaptação já feita do Cthulhu Mythos de Lovecraft. As referências estão claras tanto no enredo quanto nos mapas, como no prólogo quando Jack repara numa pintura peculiar. Todas as outras molduras pela casa guardam gravuras similares, representando seres cônicos (a Grande Raça de Yith) e outros tentaculares (os Antigos). Obviamente que um pobre leigo não reconheceria nenhum detalhe nem que ele dançasse o can can de calcinha de renda na sua frente, mas para quem conhece o trabalho do autor, este jogo é um prato cheio.


O protagonista, Jack Walters (viciante Jack, seus surtos de "Dagon will find me" e as frases com "nothing of interest"), é um investigador conhecido em NY e redondezas, tendo solucionado muitos casos. A princípio questionava-se se sua fama levou ao convite de um bizarro cultista de Boston mal afamado por aquelas bandas - ele e seus seguidores de uma religião blasfema que aterrorizava seus vizinhos - que acabou envolvendo a polícia. O jogador fica tão confuso, assustado e impressionado quanto a personagem com tudo que ocorre dentro daquela casa, em cujo porão uma cena perturbadora resultou em anos no sanatório de Arkham. Jack, no entanto, não lembrava de muita coisa. Para ele aqueles confusos fatos tinham ocorrido há apenas seis meses, quando despertou de seu "coma" psíquico e se viu no quarto pequeno e sujo do sanatório. Enquanto voltava à sua antiga vida, recebeu uma proposta de trabalho: investigar o estranho desaparecimento de Brian Burnham em Innsmouth, e é então que Jack começa a se deparar com coisas que nunca imaginou existirem.

A princípio o enredo é bastante confuso e se não tiver a devida atenção o jogador chega ao final se perguntando "já acabou? Mas que p0rr@ é essa?". Faria mais sentido narrado pelo próprio Lovecraft, obviamente, mas sem prestar atenção nos diálogos e sem ler as várias pistas, procurando por cada uma delas nos cantos mais inusitados, a situação fica pior. Mesmo para quem faz tudo isso é difícil entender 100% do que se passa, pois ainda resta a dúvida: e Jack, onde ele entra em tudo isso? Qual a relação dele com os Yith? Essa resposta tive que procurar em outras fontes (prepare-se para o spoiler): Jack é meio Yith devido à influência de um da Grande Raça quando seus pais o geraram. Sabendo disso e lembrando do que aquele Yith dizia no final sobre eles estarem em risco é possível deduzir que Jack seria a única salvação deles, a única forma de impedir que os Antigos dominassem o mundo, e por isso os caras que aparecem no prólogo (aqueles loucos) o chamaram até lá, mas o destino não quis que o homem descobrisse a verdade sobre si muito cedo e nem que pudesse se contentar com isso, resultando na frustrante porém fiel ao estilo lovecraftiano cena final.


Eu não me arriscaria a dizer que esse é um dos melhores jogos que já joguei, pois os gráficos não são tão bons e a jogabilidade deixa muito a desejar. Avaliando pelo enredo, sim, é um jogo excelente, mas avaliando essas questões de jogabilidade e gráficos, é péssimo. Primeiro que é bom jogá-lo com pouca luminosidade para captar mais da atmosfera sombria, depois que isso não colabora muito pela baixa resolução. A mixagem ficou excelente, dando uns belos sustos nos corações mais fracos e até alguns mais fortes - eu me assustei muito com os barulhos vindos do além. Agora, a jogabilidade é algo realmente irritante, a começar pela ausência da importantíssima tecla "correr". Só isso já faria muitos deixarem de jogar, mas não a mim. Aventurei-me por Innsmouth e mesmo ao me deparar com seus habitantes loucos tentando me matar, tentei fugir no ritmo calmo do Jack. Morri várias vezes, mas tudo bem. A corrida contra o Shoggoth é que acaba com as esperanças do jogador, tornando o uso de um patch - veja como um cheat - obrigatório. Agora, a melhor parte são os bugs - vários deles. Só encontrei um que faz bem: logo quando descemos da caçamba da caminhoneta e pegamos o revólver, basta subir no batente e ficar atrás da rede que ninguém vai ver Jack, então dá pra matar muitos inimigos assim. Fora esse, os outros são extremamente irritantes. O mais recorrente é quando tudo parece ficar travando, mas na verdade é apenas a personagem, pois todos os outros inimigos continuam se mexendo na velocidade normal. Com um bom processador esse bug não é tão perceptível, mas se for um Intel Atom, por exemplo, desista de tentar chegar até o final.

Apesar das desvantagens do último parágrafo, Cal of Cthulhu: Dark Corners of the Earth é um jogo que vale a pena para os curiosos e fanáticos por Lovecraft. Se você não é nem um nem outro, então fuja desse pecado mortal, pois é assim que vai chamar a obra após algumas horas de jogo.

sábado, 3 de setembro de 2011

Meeting the Old Ones

Fiz esse desenho há um tempo, inspirado no vídeo A Lovecraf dream, exibido na postagem O Chamado de Cthulhu. Não sei se dá para perceber, mas esse homem, que não é ninguém em especial, está em uma imensa caverna (provavelmente R'lyeh, nunca parei para pensar nisso), vislumbrando os tentáculos emaranhados dos Grandes Antigos.

Meeting the Old Ones (Gabriel Cavalcante, setembro de 2011; caneta, lápis de cor e giz de cera)

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Tinta&Papel #1: A cor que caiu do espaço


Lovecraft era um escritor de horror interestelar, mas as características de suas obras eram bastante diferentes das que eram publicadas naquela época e das que ainda vemos hoje em filmes, jogos e livros. Seu elemento principal, que conferiu reconhecimento, era tratar dos sentimentos que envolviam o desconhecido (a curiosidade sobreposta pelo medo), o que não acontecia com outros contos do gênero, que só mostravam o que o público queria ver: viagens em um futuro distante, planetas majestosos, raças humanóides e aventuras do tipo Star Trek e Star Wars. Não estou dizendo que tais obras e suas variantes não são boas, mas concordo com Howard quanto à sua inexistente substância verossímil. Não há nada melhor em uma obra literária do que sentir o que as personagens sentem, e isso Lovecraft soube fazer com maestria.


The Color from Outer Space (A Cor que Caiu do Espaço) foi publicada na Amazing Stories, revista voltada para o gênero cientificção, em setembro de 1927. A história narra os acontecimentos em uma fazenda no interior dos Estados Unidos, próxima a Arkham, que envolvem a queda de um estranho meteorito de propriedades desconhecidas por estudiosos e a coisa que foi morar no fundo do poço. Essa coisa, que não pertencia ao mundo conhecido, não tinha forma, era apenas uma cor confusa, desconhecida pela raça humana, que infectou tudo ao redor: solo, plantas, animais, e aos poucos foi matando a família que ali vivia. Primeiro deixou a matriarca e o filho do meio loucos, depois atraiu os outros dois filhos para sua morada, e então se alimentou dos fiapos da mãe e do pai, parecendo voltar para o lugar de onde veio em seguida. No entanto, o amigo da falecida família jurou ter visto algo saindo do poço logo após a extinção da fazenda, e nunca mais voltou a pisar naquelas terras. Sua esperança era que a represa de Arkham ficasse logo pronta para enterrar aquele "descampado maldito" e suas lembranças. 

A intenção de Lovecraft nunca foi dar ao público uma história impressionante, cheia de acontecimentos incríveis e personagens fabulosos. Para ele, a atmosfera que envolve os fatos era mais importante que tudo, e sem ela a história ficava vazia, sem vida. Seu ponto forte era retratar os sentimentos das personagens, transmitindo-os ao leitor e realmente provocando alguns arrepios. Seus contos não contém fatos meramente possíveis, não segundo tudo que nós humanos cremos, mas só de imaginar tudo que poderia acontecer provoca uma sensação inesquecível. Sabe aquilo de ver o que o autor descreve? Lovecraft faz o leitor sentir suas descrições, o que pode parecer bobo (como eu já escutei, "ler não dá medo, não pode provocar sentimento algum"), e não tenho como dizer que não é. Precisa ler para conferir.

No Brasil, tanto A cor que caiu do espaço como O chamado de Cthulhu e outros contos, A sombra de Innsmouth, Um sussurro nas trevas e Nas montanhas da loucura são publicados pela editora Hedra com tradução de Guilherme da Silva Braga. Há outros exemplares que, assim como esses, podem ser encontrados em vários sites, inclusive no Moonshadows. Mesmo assim, deixo à disposição o link para o arquivo pdf com 59 textos em português. Não tem desculpa para não ler!

Você não devia ter NASCIDO!

Vamos descontrair!

Internet é um negócio muito legal, bastante informativo, lugar de conhecer gente nova, etc. Aí você está aqui, tranquilo, passeando pelo YouTube ou blogs como o Não Salvo e vê que seus olhos podem começar a sangrar em questão de segundos. Depois de descobrir o obsucro mundo dos nonsense você fica para sempre com a cara desses infelizes filhos de Dagon e Hydra na cabeça, e de vez em quando vem aquela lembrança - não propriamente do vídeo, seja musical ou de qualquer outro tipo, pois o mundo dos nonsense é muito vasto, sempre tem um novo ser sendo descoberto, mostrando que evoluiu no quesito vergonha alheia. 

Bem, como eu sou muito bandida, não podia ficar sozinho sofrendo com esses pesadelos em forma de Shoggoth. Então vou fazer você ter pesadelos também. MWAHAHAHAHAHAHA!

Isso é um Shoggoth

Tá feliz porque é sexta-feira? Pois não devia. O Davis aqui vai te dar mais de um motivo para cultuar qualquer outro dia, menos sexta-feira!
Não, não! Stop! Repara na tia esperando o busão! Sabe isso que ela sentiu quando viu essa moça fazendo caras e bocas no meio da rua? Foi o mesmo que senti. Fica assim não, tia, é que ele só come cereal, pode engordar não. xD

 Certo, vamos ter uma boa autoestima, olhar no espelho e gostar do que vê, não se importar com o que os outros dizem. Mas, venhamos e convenhamos, algumas pessoas deviam se sentir tipo merda de gato para NUNCA fazerem algo desse tipo. ESSE INFELIZ NUNCA DEVIA TER NASCIDO!
Amigo, você é mesmo beeeeem sinistro! Tive medo só de olhar na tua cara no começo do vídeo! E vejam quanta sincronia! Quanta afinação! Que belo, que magnífico!

Vem aí a próxima diva do pop! Ela é quente, ela é sensual! Ela vai desbancar Lady Gaga! Ela vai dar uma surra de pica mole na Beyoncé! Eu nem sei o nome dela, mas o talento fala bem mais alto!
 Amiga, vamos ser gay, mas gay direito, né? Vamos vestir roupa de homem, cortar esse cabelo, parar de cantar indescência na frente das criancinhas. Isso não é de Deus! Isso é coisa do inimigo! 
(Quem vê pensa que Deus é meu senhor... xD)

Suuuuuuuuuucessooooooooooo! A primeira dica para saber quando um vídeo é bom (mas bom mesmo, daqueles bons, sabe?) é quando o próprio autor diz que é um sucesso, não interessa onde isso seja verbalizado. Então, tá aqui ela, a linda Milla Star, que é de longe uma das melhores cantoras, dançarinas e atrizes da internet! Vai ser contratada pela Sony assim, né, filha?
Milla, ainda tô procurando o avião. Cadê? Ah, né boing não, é bimotor, né?

Os ingressos para as monas irem encher o show da Bitch de purpurina tá caro? Amiga, se preocupa não! Repara no novo babado, que tá fazendo sucesso até na Europa! Ednéia é tão pop que até o preço do ingresso é nos trinques - não faço idéia de quanto seja, mas o camarote num deve passar dos vinte (centavos?).
Vâââmo Brasil! Ela é pop! Olha os dançarinos, se não são uns gatchênhos! Gente, e a colega com a blusa da Avril Lavigne, toda totosa, trabalhada na gordura? Muita macarronada, né, amada?

Desculpa eu ter usado as referências do Lovecraft nisso, mas não resisti! Shoggoth é um bichinho que eu adoraria ter no meu jardim para matar os larapios de susto, depois devorá-los, mas não muda o fato de que tenho ódio mortal dele (vai jogando Call of Cthulhu: Dark Corners of the Earth que você vai saber porquê).

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Dream a little Dream of me

Sono?
Quem és tu
que permeia minhas fantasias,
minhas ilusões?

Quem és tu?
Que visita todos os outros,
todas as noites,
mas não visita a mim
[Ó, doce ilusão!]

E sonhar?
O que é sonhar
castelos inexistentes,
céus de cores inconscientes?

O que é viajar
por uma outra relidade
onde nada é o que parece?
Onde tudo é o que deve ser

E viver
Ah, viver!
Ver, tocar, sentir
O que é?

O que é viver
Quando a mente se desliga,
entra no piloto automático,
inteiramente se automatiza?

O que é andar
por essas ruas frias
e sentir o mundo,
a Morte e a Vida?

Como será
sonhar à noite, 
andar sob o sol
sentir o frio e o calor?

Como será
deitar sem medo, 
sem preocupação?
Apenas
[deitar e dormir]

Como será
pensar em tudo,
lembrar do mundo,
e sonhar?

E sonhar, como é?
Sair por aí
sem riscos,
mas medos?

Encarar tormentas,
desbravar montanhas,
falar com os mortos,
revirar as entranhas

Todas as noites
me pergunto
o que é dormir?
O que é sonhar?

E a cada dia
permanece a questão.
O que é viver?
O que é sonhar?

Deve estar tudo
entrelaçado.
Costurados
como uma colcha de retalhos.

Unidos e deteriorados
Um sem o outro,
apenas cacos
Um com o outro
[vida, talvez?]

Não sei
Não durmo
Não sei de nada
Não sei dizer

O que acontece
quando saio de casa,
me aventuro na estrada.
Sem rumo nem nada

Apenas caminho
Mas não sei que caminho
Minhas pernas caminham
Só depois sei que caminho

E depois
não lembro de nada
Não lembro das escadas,
nem das almas

Tudo se perde
onde devia sonhar
E como não há
Não posso falar

Apenas deitar
e tentar sonhar
Apenas meus olhos fechar
e temer acordar


segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Pipoca&Guaraná #4: Cthulhu

(Cthulhu, EUA, 2007. Dirigido por Dan Gildark. Com Jason Cottle, Caesey Curran e Ethan Atkinson. Drama, Terror. Aprox. 2h)

Os fãs de Lovecraft que esperavam ver um filme sobre o Cthulhu Mythos devem ter ficado muito decepcionados ao deparar com essa adaptação de A Sombra de Innsmouth. Adaptação mal feita, por sinal. Nada contra a personagem principal ser gay e isso ter uma grande relação no enredo, mas foge completamente às intenções do original. Não é um filme bom para quem gosta de Lovecraft, mas pode ser agradável para quem nunca ouviu falar nele. Confuso, mas agradável, afinal, quem leu alguns contos do autor vai entender as referências claras, como quando o garoto cego fala que estão todos esperando por Cthulhu, ou os profundos que Russel encontra pelos esgotos, ou mesmo Zadok, um personagem comum para quem já jogou Call of Cthulhu.

Obviamente o filme levou muitas críticas negativas e notas baixíssimas. Muito se deve ao roteiro mal escrito e às interpretações, mas eu diria que não é de todo ruim. Os atores não foram lá tão maus, principalmente os habitantes da cidade que devia ser Innsmouth. Não, eles foram até leves, conseguindo transparecer menos insanidade. As personagens centrais também foram bem executadas, conseguindo se expressarem de forma independente. Michael, por exemplo, surpreendeu-me. Porém, muitos espectadores atacaram a película pelo fato de tentar contar uma história lovecraftiana em uma atmosfera gay. Sim, muitos falaram mal só por causa da exposta homossexualidade. Disseramm inclusive que Lovecraft devia estar se contorcendo em seu túmulo por causa disso. Acho que são todos machistas fanáticos, pois se fosse uma obra inteiramente héterossexual, ninguém jamais diria nada. Não reclamariam da cena em que Russel e Michael lembram um momento em que se masturbaram juntos, falando das meninas da escola. Não esculaxariam a cena em que Michael e Russel se beijam e subentendidamente fazem sexo. Ninguém caiu em cima de Malèna (2000) por causa da cena em que os vários garotos se masturbam em um círculo falando da profesora, mas só porque eles falavam de uma mulher. 

Tudo que posso dizer é: se você conhece o mínimo de Lovecraft, não assista. Ou assista para entender as referências, mas não ligue para o roteiro. Se você não conhece Lovecraft, nem perca seu tempo, pois vai achar uma porcaria por não entender nada. De qualquer forma, é aquele tipo de filme que eu gosto, mas não recomendo. Dúbio, não?

domingo, 21 de agosto de 2011

O Chamado de Cthulhu

A pronúncia, segundo o jogo Call of Cthulhu, é algo como kuh-THOO-loo. Em português a pronúncia mais aproximada é katuuluu. De qualquer forma, o próprio Lovecraft brincava com seus amigos, ora pronunciando de um jeito, ora de outro.

Para quem ainda não conhece H.P. Lovecraft, que criou toda uma mitologia em torno de suas criações, O Chamado de Cthulhu é o conto ideal para ser iniciado. Com uma atmosfera sombria, o autor descreve como em um diário as investigações feitas por seu personagem fictício a partir dos estudos de seu falecido tio, que entre muitas outras coisas deixou uma caixa cheia de recortes de jornal, anotações e um assombroso relevo que exibia um ser com cabeça de polvo, corpo bípede escamado e asas de dragão. As dezoito páginas que se estendem deixam mesmo o mais experiente leitor impressionado, com aquelas idéias na cabeça durante horas, talvez dias, ou mesmo a eternidade. 


A forma como Lovecraft capta os elementos verossímeis e os explora em uma realidade paralela é singular. Não costumo ler descrições e ter a perfeita imagem das intenções em mente, mas dessa vez posso contestar. As únicas cenas que não consegui captar com exatidão, e que percebi não serem necessárias interpretações fiéis, foram as que descrevem R'yleh e toda sua geometria errada, "algo que não pode ser desse mundo nem de qualquer outro mundo são". 

Descobri O Chamado de Cthulhu através de um jogo homônimo, Call of Cthulhu, apresentado a mim por um grande amigo e corretor, Gabriel Hermes. A resenha que li tratava do jogo como defeituoso quanto a programação - mas afinal, que jogo ou software não tem bugs? -, mas inigualável nos quesitos roteiro e jogabilidade. O autor sempre frizava sua paixão por Lovecraft e quanto o game tem de suas obras (não é á toa que o título remete ao do conto), e impressionado com vídeos e com a atmosfera única, resolvi pesquisar sobre o criador dessa realidade fantasticamente mortal. 
Encontrei no site do jogo um link para uma página inteiramente voltada ao autor, sua vida e seus trabalhos. Apesar de meu conhecimento da língua inglesa, percebi que não seria fácil conferir seus contos com toda a profundeza que eles transmitem, então procurei no 4Shared e encontrei um arquivo pdf contendo 59 textos em português, além de outros interessantíssimos, como o Necronomicon ilustrado (em espanhol, porém vale muito a pena dar uma olhada) e uma versão gráfica de O Chamado de Cthulhu.

O conto inspirou-me a escrever um parágrafo do que um dia pode vir a ser um romance, mas seria melhor, antes de falar precipitadamente, estudar mais da impressionante cultura Lovecraft. Por equanto exponho esse textículo para que você tenha uma noção de como é O Chamado de Cthulhu.

O jovem despertou de seu mais tenro sono assustado e pingando de suor. As imagens perturbadoras que acabara de presenciar ainda eram frescas em sua memória, fazendo seu coração dar saltos sempre que lembrava delas. Não entendia o que aquele sonho assombroso queria dizer, e no momento não fazia a mínima questão de descobrir. Sentia-se isolado naquele quarto escuro, sua respiração arfante ecoando em seus tímpanos de forma peculiar. Olhou ao redor com cautela, temendo enxergar alguma forma fora do comum em algum canto do aposento, ou mesmo próxima a ele, mas nada além do que estava lá quando deitou-se para dormir foi localizado. Sentiu que sua respiração aos poucos voltava ao normal, assim como o ritmo impaciente de seu coração. Os lençóis pesavam agora que encharcados de suor, e seus cabelos grudados na testa alva estavam deixando-o agoniado. Assim, jogou os lençóis de lado e pôs os pés no chão, arrependendo-se do ato no mesmo instante. O chão era frio e trouxe de volta a sensação de desespero. As imagens do recente sonho ainda povoavam sua mente, e agora que intencionava sair do conforto de sua cama, ficavam cada vez mais nítidas. Os barulhos invulgares que ouvira também lhe ocuparam os pensamentos, e o medo tornou a povoar seu peito. Fechou os olhos com força, a fim de espantar aquelas lembranças horrendas, mas quando os abriu de novo, a nitidez com que as sentia ficou mais forte. Decidiu então recolher seus pés para cima da cama, e escondeu seu corpo de volta nos lençóis ensopados. Fechou os olhos mais uma vez, agora com mais força, e os pilares escuros que emergiam do mar pareciam mais próximos. Apesar da escuridão, podia distinguir formas nadando nas águas, aparentemente indo a seu encontro. Queria fugir dali, correr para qualquer outro lugar longe dali, porém não conseguia se mexer, tão impressionado que estava. Sentia um desespero iminente, como se estivesse caindo de um precipício. Como se estivesse prestes a morrer.



 
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