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sábado, 8 de outubro de 2011

{The Prodigy} Capítulo oito


Não tardou até que a paisagem ampla e esverdeada fosse ficando cada vez mais apertada e cinza. A frieza da monocromancia de Capital era perturbadora, ainda mais por conta do deserto que eram aquelas ruas. C132 não encontrou nos dois quilômetros que percorreu uma pessoa sequer. Reconheceu corpos quentes por trás das paredes dos prédios altos, mas fora isso, nada mais. Alguns gatos e cachorros passeavam, cheiravam alguma coisa por aqui, por ali, e logo voltavam a latir e a miar, correndo de um lado para o outro, olhando ao redor como se vigiassem o perímetro. Alguns até pararam e contemplaram o carro dirigido pelo robô passar, como se fosse algo invulgar. Devia ser, visto o estado de abandono da cidade.
        C132 parou o veículo ao meio fio logo adiante, próximo de uma cabine telefônica. Antes de descer, verificou o estado de 57. Ainda respirava pesado, adormecido.
        - Venha, Luz. – disse. – Preciso que você armazene alguns dados.
      As máquinas desceram do carro e foram até a cabine. Ao entrar, o robô arrancou o fio do telefone e apontou-o para o HD, que aproximou-se e começou a piscar, lendo todos os dados possíveis.
        - Pegue tudo. Mapas, números de telefone, endereços, e-mails.





O vácuo no qual estava começou a ficar menos nítido, dando lugar a uma sensação engraçada. A escuridão que o rodeava de repente não era tão escura assim. O silêncio também não era tão silencioso, e a sensação de flutuar também não era a mesma. Não flutuava, e sim repousava em algum lugar macio inclinado a noventa graus. Abriu seus olhos lentamente, habituando-se à claridade. Estava dentro de um veículo e com certeza não mais no complexo nem em suas redondezas. A paisagem vista pela janela era completamente diferente, cinza, fria, monumental, assustadora. O céu dali não tinha a mesma tonalidade daquele que banhava o complexo: era pesado, morto, parecia pronto para cair sobre o mundo a qualquer momento.
        57 olhou ao redor, procurando por C132. Nada dele nem de Luz. Olhou pelas janelas, contemplando aquela rua deserta, mas nada. Olhou pela outra janela e sentiu-se um pouco mais aliviado ao vê-los na cabine telefônica ali perto. Deviam estar localizando o Dr. Kepler ou qualquer outro relacionado ao complexo. Aquela, então, devia ser Capital. Pelos filmes que vira não imaginava que cidades fossem tão desertas e agora que via uma de perto, assombrava-se com a imensidão do lugar. Curioso, abriu a porta e pôs os pés para fora do carro, sentindo a dureza daquele chão. Mesmo calçado podia sentir o quão quente era, como se alguém tivesse ligado um forno nos esgotos. Ficou de pé feliz por conseguir agüentar o próprio peso após o incidente e olhou mais uma vez ao redor, sentindo o vazio que preenchia aquele lugar. Era extremamente perturbador fazer parte daquela solidão, como se fosse a última pessoa no mundo. Virou-se e deparou com uma imensa parede de vidro que se estendia tanto para os lados quanto para o alto. Seus olhinhos foram seguindo-a na altura, até que sua cabeça estava completamente inclinada e seu coração batia forte com a impressão de que tudo aquilo ia cair sobre ele.
        Assustado, 57 rapidamente olhou para frente e deparou com C132 e Luz retornando da cabine. Aproximaram-se dele, o robô o avaliando. Tocou sua testa e pegou seu pulso. Aproximou a orelha mecânica de seu peito e avaliou seus olhos clinicamente. O menino sentiu-se como há quatro anos, sendo examinado constantemente. Era incômodo ter alguém tão preocupado assim com ele. Sentia-se sufocado. Foi um alívio quando o robô se afastou e não falou nada a respeito de seu estado.
        - Luz está com todos os dados possíveis de Capital. – Estendeu a mão para o besourinho, que pousou em sua palma. – Descobri que o Dr. Kepler é Howard Kepler, um dos fundadores da Corporação Kronos.
        As últimas palavras não significavam muito para o garoto, mas com certeza seriam de grande ajuda no meio dessa cidade monstruosa. Howard Kepler e a Corporação Kronos não lhe importavam muito no momento, e sim todas as outras questões que trazia consigo.
        - Vamos começar pelo laboratório. – informou o robô, dando a volta no carro. – Fica no centro. Não levará muito tempo.
        O menino voltou a entrar no veículo e então continuaram seu caminho. À medida que iam se afastando da periferia 57 percebia o grau de abandono da cidade. Quanto mais se dirigiam ao centro, porém, mais pessoas eram vistas nas ruas. A maioria era estranha, cobertos da cabeça aos pés, outros, com menos roupa, tinham o corpo pintado ou carregavam algum tipo de arma. O garoto já vira algumas fotos de armas e estudou sobre revoluções e guerras, e segundo a teoria adquirida, aquele cenário era no mínimo de uma revolução. Sentia-se curioso em saber que revolução era essa que prendia as pessoas em suas casas e as que saiam pareciam prontas para começar uma confusão a qualquer momento. Talvez esse não fosse um bom dia para visitar a cidade.
        Quanto mais avançavam rumo às entranhas da metrópole também era difícil manter um ritmo constante. Quando parecia não poder piorar, ao virar a uma esquina C132 viu-se obrigado a parar o carro. Aquela rua estava amontoado de pessoas indo e vindo com placas nas mãos e armas pendendo dos ombros. Pelo menos três enormes tanques verdes permaneciam em repouso no meio da multidão com soldados sobre seus cascos, averiguando tudo de cima. 57 já estava assustado com a imensidão de Capital, depois foi se sentindo agoniado com as pessoas que iam e vinham, mas agora estava aterrorizado. Ninguém ali parecia disposto a sentar e conversar, fosse quais fossem seus motivos, então o que poderia acontecer a ele caso tentasse abrir caminho, mesmo acompanhado de uma máquina?
        - A prefeitura fica nesse quarteirão. – informou o robô. – O laboratório é no final dessa rua. Temos que passar por aqui.
        57 olhou para ele cheio de medo. Claro que C132 não captou seu sentimento, então abriu a porta, quase batendo em algumas pessoas, e deu a volta no carro, abrindo a porta para que o pequenino descesse com Luz em seu ombro. Pisar no chão e encarar o asfalto pisado por uma infinidade de homens e mulheres era muito mais aterrorizante do que presenciar tal cena rodeado de confortáveis paredes de metal. C132 agarrou sua mão e foi abrindo caminho gentilmente.  
        Cada pequeno subgrupo gritava uma coisa diferente, mas todas relacionadas à indústria farmacêutica. Pelo que o garoto pôde entender de alguns cartazes e da gritaria, o governo não permitia mais a produção de certos remédios importantíssimos. Não tinha a menor idéia do que vinha acontecendo para tanto, mas provavelmente C132 sabia.
        - Pra que tudo isso? – questionou, procurando ocultar o desespero que sentia por estar ali.
        - Essa comoção? – A máquina fez uma de duas costumeiras pausas para pensar, checar as informações em seu banco de dados. – Bem, aparentemente uma praga está matando toda a vida no planeta. Provavelmente existia um remédio para tentar combater os efeitos colaterais e o governo parou de produzi-lo por questões financeiras, pelo menos é isso que algumas pessoas estão dizendo.
        Política, segundo tudo que leu em livros e que seus professores confirmaram, era o mal da humanidade. Organização sempre foi algo importante, mas não quando pessoas corruptas estavam no poder. Seria possível que a produção dos medicamentos tenha sido parada por causa de pessoas com reservas absurdas que preferiam gastar esse dinheiro com outra coisa, mas 57 preferia pensar que a verba realmente não era suficiente.
        Após o que pareceu ao garoto uma maratona, enfim alcançaram os portões da clínica. Não havia tantas pessoas por aqui, estavam todas concentradas no prédio da prefeitura. C132 olhou ao redor, avaliando tanto o prédio quanto as grades. Uma grossa corrente presa por um grande cadeado trancava o portão. As grades eram muito altas para pular, mesmo para C132, pois chamaria atenção um robô pulando com um menino em seus braços e um vaga-lume os acompanhando.
        - Deve haver outra entrada.
        - Sim, provavelmente. – O homem de lata seguiu as grades, dobrando a esquina. Lá onde o terreno terminava havia um pequeno portão discreto o suficiente para passar despercebido por olhos humanos. – Venha.
        A agonia que 57 sentia antes só fez aumentar. Quando se aproximou, C132 já abria a fechadura com uma longa e fina ponta que saia de seu dedo. Querendo ou não, aquilo era invasão de propriedade privada. Quando pensou em dizer algo o portão deslizou com um leve rangido para dentro do terreno. Sem mais nem menos a máquina entrou, Luz seguindo-o e voando à sua frente em direção à discreta porta.
        - O que foi, Luz? – perguntou 57, saltitando em sua direção.
        O HD planava próximo à porta e batia nela constantemente, como se quisesse desesperadamente entrar. C132 apenas assistia à cena, curioso. Após um momento, aproximou-se da porta, desviando dos ataques do pequeno hardware, e destrancou-a. Não precisou mais que abri-la para o inseto mecânico entrar disparado no local. Estava escuro lá dentro. Pouca luz entrava pelas tábuas afixadas nas janelas e a poeira era visível a olho nu. 57 deu um espirro, e então outro, não parando mais. O robô, ciente de suas fraquezas, pegou novamente a máscara de oxigênio, fixando-a no rosto alvo e amedrontado do pequeno. Ouviram um baque vindo dos confins do laboratório que fez o coração de 57 saltar, quase saindo pela boca.
        C132 empurrou-o gentilmente pelo ombro para dentro, fechando atrás de si a porta, deixando a escuridão reinar. Junto do baque suave alguns medos do garoto sumiram. Sabia que todas aquelas pessoas ainda estavam lá fora e que o que estava acontecendo não era bom, mas pelo menos as paredes os separavam. Agora outro medo invadia seu peito, o provocado por aquele barulho e pelas vozes distantes que surgiram repentinamente.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

{The Prodigy} Capítulo sete


A respiração do pequeno foi normalizando aos poucos, até que C132, com sua programação avançada, reconheceu o nível apropriado de batimentos cardíacos e a intensidade das inalações e exalações. Checou a pulsação do menino e, mais tranqüilo, catou suas roupas e o pegou nos braços, voltando ao galpão. Acomodou o corpo inerte do frágil 57 no banco do passageiro do veículo com combustível. Luz pousou no ombro do garoto, apagando um pouco seu brilho e revelando sua forma de vaga-lume (um vaga-lume prateado, metálico, todas as suas articulações expelindo luz). A outra máquina deu a volta no caminhão e sentou-se no banco do motorista. Retirou com facilidade o painel do volante e mexeu nos fios à mostra, conseguindo ligar o motor. Não sabia exatamente como dirigir um caminhão, afinal, foi programado para guiar ambulâncias. Não devia ser tão difícil, pois não carregava ninguém à beira da morte. Bem, um garotinho desfalecido, mas não à beira da morte. Agora ele estava bem, fora de riscos.
         
Assim sendo, C132 manobrou o enorme veículo para fora dali, para fora do complexo vazio, sem vida. Seguiu pela estrada de terra calmamente, tomando cuidado para que não balançassem muito, já que era impossível permanecerem estáveis. A cada instante olhava para o lado, a fim de checar se 57 acordara. Luz continuava em seu ombro, quieto, como se também sentisse pelo ocorrido.
         
Não demorou muito, a gasolina acabou. C132 parou de vez e desceu, dando a volta novamente para pegar seu pequeno protegido. Tomou-o nos braços, Luz voltando a acender-se, e caminhou mais alguns quilômetros, alcançando o discreto portão. Estava aberto, escancarado. Na pressa, devem ter esquecido muitas coisas importantes, inclusive que aquele lugar lá atrás era um segredo. Isso não importava mais, não agora. C132 atravessou o portão, caminhando mais um pouco pela estrada de terra, até que passou por um arco de árvores e encontrou uma extensa pista asfaltada. Pousou cuidadosamente o menino encostado no tronco de uma árvore próxima e aproximou-se da pista, tocando-a com uma de suas mãos. Seu sistema começou a fazer análises comparativas, e então soube que ali passaram veículos recentemente. Isso era um bom sinal, afinal, robôs não dirigiriam a não ser que fossem ordenados. Se for um robô que passou ali ou não, só o destino diria.
         
De repente, C132 captou uma leitura diferente. Sentia uma leve vibração. Era um veículo que se aproximava. A máquina, então, voltou para pegar o garotinho e em seguida retornou à beira da estrada. Surgiu no horizonte à direita um carro vermelho. Aproximava-se com certa velocidade, mas ao avistar o robô com o menino nos braços, reduziu. E então o carro, baixo, comum, dirigido por um homem forte em seus aparentes trinta anos, parou ao lado de C132. Baixou o vidro e olhou curioso para o trio.
         
- Algo errado? – perguntou, estranhando o menino desmaiado.
         
- Senhor, precisamos de uma carona até Capital. – Foi a resposta.
        
- E o que aconteceu com ele? – continuou, como se o robô nada tivesse dito.
        
C132 olhou para o rosto adormecido de 57. Ele era tão pacífico acordado, dormindo, então, parecia imperturbável.
         
- Ele se afogou, mas seu estado já é estável. Provavelmente acorde em algumas horas.
        
O homem olhou mais uma vez para o menino, estranhando. Não confiava em máquinas, ainda mais depois de tudo que aconteceu nos últimos anos. De qualquer forma, aquela sabia o que exatamente tinha acontecido com ele. Chegando a Capital, iria à polícia e o denunciaria. Depois escaneariam sua memória para descobrir o que realmente aconteceu, e então aquele maldito robô viraria ferro velho. Com tudo isso em mente, o homem, descontente, indicou que entrassem. C132 sentou-se no banco de trás com 57 ainda em seus braços. O carro seguiu seu caminho com um clima tenso.
         
C132 nada dizia, e o homem não parava de olhar pelo retrovisor.
         
- E então? – disse, a voz um pouco arrastada. – De onde vocês são?
         
- Viemos do complexo da Corporação Kronos.
         
- Complexo, é? Mas não tem nada por essas bandas. E a Corporação Kronos faliu há anos.
         
Esse era um interessante detalhe do qual o robô não tinha conhecimento. Será que isso explicava o estado de abandono do complexo? Quem sabe aquela fuga quatro anos atrás tenha relação com isso. Precisava coletar dados para manter-se informado, pois 57 provavelmente faria perguntas.
         
- O que aconteceu, senhor? – perguntou, solene.
        
Os olhos cerrados do homem voltaram a encarar C132 pelo retrovisor. Estranho uma máquina não saber de tudo.
         
- Com a Kronos? Ah, fraudes, desvio de verba. Coisas do gênero. O que vocês vão fazer em Capital?
         
- Procuramos pelo Dr. Kepler. Fui incumbido de levar 57 até ele assim que acordasse.
         
- Kepler, Kepler. Você quer dizer Howard Kepler? Ele é um dos fundadores da Kronos, não é? Aparecia muito nos noticiários, principalmente após a falência da corporação.
         
- O senhor o conhece? Faz idéia de onde possa estar?
         
- Se você que foi ordenado por ele não sabe, como eu vou saber? Mas, o mundo não é mais o mesmo. Muita gente se foi, então se tiverem sorte, o encontrarão logo. Ou descobrirão que ele também se foi.
         
- Foi para onde, senhor?
         
Ah, a ignorância dos robôs. Eles não tinham idéia de como eram sortudos em serem programados. Viam apenas o que precisavam ver. Se sua programação dissesse que o mundo era um lugar maravilhoso, então assim seria, ao menos para eles. Era de certa forma invejável.
         
- Quer dizer que ele morreu. - explicou o homem, incomodado por ter que explicar isso a uma máquina que supostamente deveria ser mais inteligente que ele.
         
- Ah, entendo. – E logo computou o termo em seu sistema. – Ele parecia bastante urgente quando me ordenou que cuidasse de 57, e depois todos sumiram. O que aconteceu, afinal?
         
Não que C132 tivesse alguma esperança de que aquele mero civil, aparentemente, soubesse de algo que aconteceu no complexo, mas certamente sabia como estava o mundo. Realmente, o robô captou mais poluição no ar do que há quatro anos. As plantas também não eram as mesmas.
         
- Não sei direito. Nunca nos deixaram a par da situação. Tem algo a ver com uma epidemia. Começou há uns três, quatro anos. Desde então, as pessoas vêm morrendo a cada dia. Estou voltando de uma cidade no interior, e só ontem morreram nove por lá. É muito triste. Ninguém mais tem esperança de que tudo vai voltar como era antes.
         
A paisagem que o robô assistia passar pelo vidro do carro ainda era verde, mas percebeu que não tão verde assim. Fazendo uma comparação do ar de quatro anos com o de agora, entendia que o mundo realmente não era mais o mesmo. O planeta estava doente, morrendo, e junto, seus habitantes.
         
O veículo parou bruscamente e o motorista xingou. C132 olhou para frente e deparou com uma cena que jamais vira: um amontoado de carros, caminhões, motos... todos virados, em chamas, quebrados, deformados. Era possível ouvir gritos ao longe, desesperados, pedindo por ajuda. O homem disse algumas coisas e saiu assustado. Aproximou-se do acidente e passou por uma parede de fumaça, sumindo lá dentro. C132 perguntava-se o que poderia fazer. Esperar? E se algo acontecesse a ele, como saberia? Aliás, podia ser perigoso continuar ali. Assim, ajeitou 57 em seus braços e saiu do veículo também.
         
O ar estava densamente poluído aqui, poderia prejudicar a saúde do menino. Então, a máquina retirou de seu compartimento uma máscara de oxigênio. Posicionou-a na frente da boca do jovenzinho e ela lá mesmo ficou, grudando em seu rosto e começando a funcionar. Luz voltou ao ar, mas dessa vez mantinha-se perto.
         
C132 caminhou lentamente em direção ao colapso, tentando enxergar além da parede de fumaça. Conseguia distinguir pessoas e veículos, mas não nitidamente. Era arriscado continuar, porém a única forma de sair dali rapidamente. Então, suas pernas mecânicas moveram-se até a parede de fumaça e a atravessaram rapidamente. Do outro lado, a definição de caos. Todos gritavam palavras ininteligíveis, desesperados, uns pegando fogo, outros tentando ajudar, outros presos em carros virados. Alguns acidentados, vendo-o, logo ergueram as mãos em sua direção, implorando que ajudasse. Todavia, ele não podia. Não era essa sua missão. Foi programado para auxiliar médicos e enfermeiros, mas no momento seu objetivo era proteger 57 e levá-lo ao Dr. Kepler. Sendo assim, olhou para frente, concentrando-se em um ponto fixo, e continuou sua caminhada.
         
Em um momento alguém gritou “Ei! Você! Homem de lata!” e foi impossível não olhar. Era o homem que deu carona lá atrás. Estava abaixado ao lado de um veículo virado, completamente deformado. A mulher, que provavelmente dirigia, sangrava tanto que suas chances de sobrevivência eram mínimas se não fosse tratada imediatamente. Também havia um bebê. Ele chorava alto nos braços dela, por sorte ileso.
         
- Me ajude a tirá-lo daqui! – esbravejou o homem. – Vamos, o que está esperando?
         
C132 olhou para a cena e – se é que era possível – lamentou. Não podia fazer nada por eles. Não podia simplesmente largar 57 no canto para ajudar aquelas pessoas. Era inconcebível.
         
- Sinto muito, senhor. – disse, voltando a andar.
         
O homem, percebendo seu distanciamento, gritou cada vez mais alto, mas foi em vão. O robô não lhe dava atenção, apenas caminhava.
         
Após alguns minutos, viu-se fora daquele mundo de caos, livre de pessoas gritando por socorro. Alguns veículos aqui e ali também estavam acidentados, mas era uma situação bem menos grave. Havia muitos outros carros parados na estrada, seus ocupantes do lado de fora, vendo a confusão. Ao longe, os sensores auditivos da máquina podiam detectar sirenes. Muitas sirenes. Capital com certeza era para lá. Andou mais um pouco até que avistou um carro vazio, as chaves na ignição. Devia ser de alguém que adentrou o caos para ajudar, e fosse quem fosse não tinha noção de como o ajudou. Sem pestanejar, C132 pousou 57 no banco da frente, colocando-lhe o cinto, e sentou-se em frente ao volante, dando partida. As outras pessoas ao redor olhavam para a cena confusas, mas não podiam fazer nada. Alguém até xingou alto para o robô, porém era completamente em vão. Deu a volta e seguiu na direção contrária, para onde vinham as sirenes, para onde devia ser Capital.
         

terça-feira, 23 de agosto de 2011

{The Prodigy} Capítulo seis


Caminhando pelos corredores do complexo mais uma vez, agora com todos aqueles fatos em mente, 57 sentiu como se aquele fosse um lugar estranho, um lugar que visitava pela primeira vez e do qual não gostava. Sentia-se mais sozinho do que nunca na imensidão daquele prédio. Sempre que olhava para algum canto, alguma sala aberta, qualquer ponto, tinha alguma lembrança de seus irmãos, de Elizabete e do Dr. Kepler, que, recordava-se aos poucos, sempre estava onde suas criações estavam. O menino conseguia lembrar inclusive do olhar maravilhado que o velho sempre fazia ao deparar com um deles ou com todos juntos. 57 sentia repulsa. Uma inexplicável repulsa.
         
Após algum tempo andando para lá e para cá, C132 conseguiu se localizar em meio a plantas danificadas e consultas esperançosas aos dados de Luz, que agora os acompanhava. O garoto achava melhor assim, como o robô mesmo disse, pois as informações que ele continha, tanto as mais visíveis quanto as ocultas e criptografadas poderiam mostrar utilidade. Já que não faziam idéia de como estava o mundo lá fora, qualquer informação, qualquer instrumento meramente usual poderia vir a ser útil.
         
O Dr. Kepler, provavelmente em um momento de desespero, segundo os relatos de C132 de que todos corriam para todos os lados ao toque de um alarme contínuo que só parou com uma explosão, não especificou para onde ia e para onde 57 tinha de ser levado. A máquina levou algum tempo pesquisando os arquivos deteriorados do sistema e as informações de Luz até encontrar referências a um laboratório em Capital, a cidade mais próxima. Apesar da vastidão do mundo, o jovenzinho não se sentia desmotivado. Precisava encontrar esse homem a qualquer custo, não importava quanto tivesse que procurar. Assim, começariam por Capital, e se ele não estivesse lá, o jeito seria recolher pistas e continuar a busca. Segundo uma das plantas que C132 conseguiu a muito custo remodelar, havia um galpão no lado oeste do complexo onde eram realizadas cargas e descargas, tanto por veículos terrestres quanto por aviões. Então, dirigiram-se para lá na esperança de encontrarem qualquer meio de chegar a Capital.
         
A série de enormes corredores que seguiram levou-os até o tal galpão, que em toda sua monstruosidade, tinha pouquíssimos veículos terrestres a vista. Enormes caixas e containeres ocupavam o lugar em diversos pontos, todos com trancas eletrônicas. Seus conteúdos não interessavam a 57 no momento, e já até imaginava que deviam ser alimentos e, em sua maioria, material de pesquisa do projeto Neo homo. Então, sem perder tempo, o trio peculiar dirigiu-se a uma fileira de pequenos caminhões de carga. C132 deu uma olhada em suas cabines pelo vidro e quebrou-os para ter acesso aos painéis. Após conferir todos, voltou-se a 57.
         
- Todas estão sem combustível, a não ser por esta. – E apontou para o carro. – No entanto, sua quantidade não é suficiente para alcançarmos Capital. Pode ser que consigamos chegar até a entrada do complexo, mas é impossível ir mais longe.
         
Aquele fato não deixou 57 abalado. Na verdade, estava tão otimista que olhou ao redor, procurando por galões de gasolina ou qualquer outro tipo de combustível. Um lugar como aquele devia ter um posto de combustível de fácil acesso. No entanto, o garoto não encontrou nada que indicasse isso.
         
- Então vamos. – disse, confiante. – Deve haver um posto aqui perto, e mesmo que cheguemos apenas até a entrada, lá deve ter uma estrada.
         
E aqui seu otimismo se mostrava mais forte, pois se antes pensava estar completamente sozinho no mundo, agora que tinha noção de que aquele lugar não era tudo que existia, talvez outras pessoas estivessem andando lá fora. C132, que não entendia a complexidade dos sentimentos humanos, apenas acessou o painel ao lado das enormes portas para abri-las.
         
Houve um ruído, e então, lentamente, uma nova luz foi entrando, invadindo os glóbulos oculares de 57. Aos poucos sua visão ia se acomodando com aquela claridade e ele ia distinguindo as formas que nunca tinha visto tão de perto. A mata, as árvores enormes (do jardim interno do complexo só conseguia ver suas copas) e até o canto dos pássaros, que ouvia pela primeira vez. Todo aquele verde foi invadindo sua mente de forma sublime, enchendo seu peito de uma inexplicável alegria. Sem que percebesse, seus lábios foram se esticando em um sorriso, e então teve lapsos de memória. Lembrava de uma floresta, e além dela, a praia, o mar. Caminhava tranquilamente por ali, acompanhado de outras pessoas. Falavam com ele sorrindo e o jovem sorria de volta, mas sempre que alguém tentava verbalizar seu nome, as palavras se perdiam no vento, como se distantes. Eram apenas ecos de letras tentando formar um nome.
         
C132 dirigiu-se ao veículo, porém, parou ao ver que 57 ia para o outro lado, em direção às árvores e à estrada de terra que se estendia. Seus pequenos pés pisaram então a terra e o menino sentiu-se livre. Olhou para as árvores, ouviu o canto dos pássaros, e olhou para cima, para o céu azul coberto por densas nuvens cinzentas que não deixavam aquele momento menos belo. O céu parecia tão maior visto dali, por entre as copas das grandiosas árvores. Era magnífico vislumbrar aquela imensidão. Sorriu mais largo, e as lembranças da floresta, da praia e do mar ficavam mais nítidas. Ouvia risos e vozes de crianças. Também ouvia a voz de uma mulher dizendo “cuidado! Não vão muito longe!”. Sentia-se tão confortável ao ouvir essa voz, mesmo que não lembrasse de quem era.
         
Ouviu então o barulho da água correndo ali próxima, e as lembranças do som das ondas do mar invadiram seus pensamentos. Via a praia, a areia clara, o vasto céu limpo e o mar de águas cristalinas. Alguém mencionou como aquilo era belo, e um cachorro latiu, correndo ao redor deles, abanando o rabo, se divertindo. Ele queria tanto se banhar naquelas águas. Por que não?
         
57 correu por entre as árvores em direção ao som da água. C132, confuso, correu atrás dele, e Luz rapidamente voou junto, passando agilmente do robô. O menino, porém, era bastante rápido, e logo alcançou um extenso rio. Sua água era limpa, mas não tão limpa quanto o mar que lhe invadia os pensamentos. Aquele som remetia-lhe ao das ondas, e então a vontade de estar ali, com a água, fazendo parte de sua existência, cresceu. Assim, tirou sua roupa, jogando-a para todos os lados, e correu em direção ao rio. Ouvia as risadas das crianças e os gritos de C132, indistinguíveis. Seus pés alcançaram a água, e então submergiram, assim como suas pernas e logo seu tronco. Estava quase no meio do rio, até que escorregou em uma pedra, afundando completamente. A corrente era forte, assim como a que o puxou para o fundo do mar. Seu corpo se debatia, os braços procurando um ponto firme desesperadamente, mas nada tocavam. E foi sendo levado pela correnteza, sentindo a água tomando conta de seu corpo.
         
Até que um braço o segurou pela cintura diminuta e o puxou para seu lado, fosse qual fosse, pois já não sabia onde era cima, baixo, direita, esquerda. Não sentia mais a água esmagando-o; sentia o vento soprando gelado, assim como ouvia vozes desesperadas ao longe, o som das ondas e o do rio correndo. E por mais que tentasse enxergar além do braço que o puxava, não conseguia. De repente tudo ficou branco.





O robô deitou o garoto ao leito do rio, sentindo um peso ao ver seu corpo tão mole, mais parecendo um boneco de pano. Posicionou sua cabeça e seu tronco devidamente e pressionou seu peito, tentando expulsar a água que se alojara em seus pulmões. Repetiu o processo até que 57 vomitou toda a água, porém continuava desacordado. Sua respiração estava bastante lenta e fraca, e ao perceber isso a máquina sentiu um desespero inexplicável. Máquinas não têm sentimentos, é o que dizem, mas C132 podia discordar, pois o que sentia não era normal. Sim, era sua missão cuidar do menino, mas nada explicava aquele desespero todo. Então, Abriu o compartimento sob seu peito e de lá retirou uma bolsa, dentro da qual havia uma seringa de ponta fina e uma ampulheta. Extraiu o líquido translúcido do frasco para o instrumento e parou, olhando mais uma vez para 57.
         
Sua memória foi invadida por visões do menino, desde que ele lhe foi entregue até agora. E seu sorriso, de todas as lembranças, era a que mais pulsava. Após ver o caos que se instalou no complexo quando se deu a evacuação, achou que o mundo estivesse acabando e que não havia esperança para os humanos, até que viu pela primeira vez 57. E antes desse incidente, quando vislumbrou seu sorriso, sentiu essa mesma sensação. Curioso. Um robô devaneando sobre sentimentos.
         
C132, então, pegou cuidadosamente o braço do jovem e inseriu a agulha em uma veia aparente, soltando a substância lá dentro. Luz pairava sobre eles, pacífico. O robô retirou a agulha e cobriu o furinho com um pedaço de algodão, segurando o menino pelos ombros, olhando para seu rosto desfalecido. E eles esperaram. E esperaram. E esperaram.
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